quinta-feira, 8 de outubro de 2009

UM AMOR DEPOIS DO OUTRO – Derek Walcott

UM AMOR DEPOIS DO OUTRO – Derek Walcott


Virá o tempo
quando exultante
hás de saudar-te ao chegar, em teu espelho, e cada qual
retribuirá sorrindo a saudação do outro,
e dirá, senta-te aqui. Come.
Amarás de novo a quem te era estranho: a ti mesmo.
Dá vinho. Pão. Teu coração de volta
a si mesmo, ao estranho que toda a vida
te amou, que, por causa de um outro,
desconsideras, que tem conhece de cor.
Pega as cartas de amor na estante,
As fotos, as anotações desesperadas,
Descasca do espelho tua imagem.
Senta-te. Refestela-te com tua vida.

Constantino Cavafy

Deixem-me estar aqui. Que também eu contemple,
um pouco, a natureza - o mar, nesta manhã,
o céu azul sem nuvens, de um e de outro a luz
onde se alonga a amarelada praia.

Deixem-me estar aqui. Que eu pense que isto vejo
(não é que o vi um instante, quando aqui parei?).
Tudo isto só - e não, também aqui, visões,
memórias, e os espectros do prazer antigo.

Constantino Cavafy
(trad. Jorge Sena)

Vasco Costa Marques

Há um grave problema a resolver: existe
"cod liver oil" em "stock" que o mercado não escoa
e, ou a Firma coloca este excedente ou a
fábrica encerrará se a situação subsiste.

Observe-se, porém, que a crise de lavoura
levou à criação de um Fundo de Assistência,
e mais de um deputado aludiu às carências
que grassam nas regiões gramino-produtoras.

Surge, pois, oportuna a suplementação
das camadas rurais com Vitamina D,
prevenindo o desgaste humano da Nação,

salvando-a da fatal degradação biológica.
O Director-Geral, que é homem nosso, vê
o alcance desta acção à base sociológica.

Vasco Costa Marques, Poesia portuguesa do pós-guerra - 1945-1965, Editora Ulisseia

ENTREVISTA DE JORGE LUIZ ANTONIO A ROGEL SAMUEL EM:

Museu do Essencial e do Além Disso, Rio de Janeiro, out. 2009.


Disponível em:



http://arteonline.arq.br/museu/interviews/Rogel%20Samuel%20e%20JlA%20A%20Poesia%20Digital.pdf


aqui

poetisa hindu do séc. XV

Poema devocional de Mirabai

Ajoelho-me perante ti
Bihari A tua coroa é
de penas de pavão e o tilak
brilha na tua fronte
Ondulam os pendentes de oiro
nas tuas orelhas e os negros
anéis dos teus cabelos
Quando tocas flauta
deixas desassossegado
o coração das mulheres
de Braj Ao contemplar-te
Mira desfalece

Mirabai, poetisa hindu do séc. XV

jack agueros (USA,n.1934)

Salmo pela distribuição



Senhor,
na Rua nº 8
entre a 6ª Avenida e a Broadway
em Greenwich Village
há tantas sapatarias
com tantos sapatos
que me pergunto
por que há tanta gente descalça
na terra.

Senhor,
tens que despedir o Anjo
que tem a tarefa da distribuição.



jack agueros (USA,n.1934)

sábado, 12 de setembro de 2009

Fernando Pessoa- Bernardo Soares


"A fraternidade tem subtilezas"
Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio voltou-se para mim e disse: «Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras.»

Ao toque do clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita…
A fraternidade tem subtilezas.

Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia – não há diferença de qualidade mas apenas de quantidade. Abaixo estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, ou o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.


Bernardo Soares,Livro do Desassossego (Pessoa 1888-1935)

antigo egipto-anónimo


Quando me dá as boas-vindas
De braços bem abertos
Sinto-me como aqueles viajantes que regressam
Das longínquas terras de Punt.

Tudo se muda; o pensamento, os sentidos,
Em perfume rico e estranho.

E quando ela entreabre os lábios para beijar
Fico com a cabeça leve, fico ébrio sem cerveja.


(Anonimo-Antigo Egipto)
trad. por Helder Moura Pereira

Joaquim Namorado



O QUE É, ERA

Quando Cristóvão Colombo descobriu a América
a América estava lá ;

o sangue já circulava
antes de descrever Harvey a sua circulação ;

A gente respirava sem saber
que respirar é uma oxidação ;

Tudo existe
O que se inventa é a descrição.

Joaquim Namorado

as orquídeas-Francisco Morales Santos



COISA CERTA


As orquídeas não tecem
nem penteiam;
o mais que fazem
é desfiar a neblina
para tomar do céu
o fulgor, sua cobertura,
mas a selva
se ocupa de que vivam
obsequiando-lhes leito nos tocos
e em não poucas
de suas melhores árvores.
Imitando-as, claro,
em outra selva mais densa, ao acaso,
insurge uma espécie bípede
que busca, por toda costa,
viver como a orquídea.

Francisco Morales Santos (Guatemala, 1940)

Tradução: Anibal Beça

Jorge de Sena- poema


jorge de sena - 1919-1978


Foi necessário que a família doasse, como era seu desejo, todo o seu espólio literário, biblioteca e objectos pessoais, para que, finalmente Portugal cumprisse o seu grande desejo de voltar à pátria e aqui repousar para sempre.

Jorge de Sena foi só um dos maiores poetas portugueses. Nunca tolerou ditaduras - malquisto e perseguido em Portugal no tempo de Salazar, foi para o Brasil - ele que tinha formação na marinha de guerra (creio), tornou-se professor no Brasil e aí desenvolveu parte da sua obra, se tornou brasileiro e publicou o primeiro dos seus grandes estudos camonianos.Instalada a ditadura no Brasil, foi para os USA, para a prestigiada - e que o prestigiou também - Universidade de Santa Bárbara, na Califórnia - onde viveu até à sua morte e onde atribuíram o seu nome- Cátedra Jorge de Sena - ao departamento dedicado a estudos portugueses e espanhóis.Antes recebera um prémio de poesia em Itália.Sempre quis regressar a Portugal após a revolução «dos cravos» que O desiludiu bastante, aquando dos dois primeiros anos. Não o quiseram por cá -ele que tinha lugar como professor universitário em qualquer grande universidade do mundo. Só agora se cumpre esse seu desejo -português que sempre foi, foi também brasileiro no Brasil e morreu como americano. Hoje os seus restos mortais são trasladados para um lugar que é quase uma espécie de quase panteão.
Foi, como disse, GRANDE: na postura democrática, na criação e na crítica literária e de artes, nomeadamente cinema, na ficção - contos, novelas,teatro e o inacabado e no magnífico romance Sinais de Fogo -e na poesia. Dir-se-ia: mais vale tarde do que nunca...Mas só o trazem porque ele tudo doou à Pátria que pouco interesse mostrou por ele.Em vida concederam-lhe, um ano antes da sua morte,(1977) a condecoração máxima num 10 de Junho,dia de Camões e de todos nós,em que pronunciou o mais veemente e melhor discurso oficial produzidos desde 1974 nesse Dia de Portugal.está esquecido, praticamente, nos programas do ensino secundário.Pátria ingrata para ele e para tantos.

Desculpem o grande prelúdio, e já agora aqui vai um dos seus poemas (já divulguei outros):

Amo-te muito, meu amor,
e tanto, que, ao ter-te, amo-te mais e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

JORGE DE SENA, 1919-1978


Ver também http://hardmusica.pt/noticia_detalhe.php?cd_noticia=2999
ou
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_de_Sena

Jorge de Sena



CARTA A FERNANDO PESSOA


Meu caro Amigo


Se me não engano, é esta a segunda carta que V. recebe depois de morto. A outra, como deve estar lembrado, escreveu-lha Carlos Queiroz, que o conheceu pessoalmente. Não tive eu tanta honra, o que, pode crer, é um dos meus desgostos verdadeiros. No entanto, não lamento o desencontro. Apenas a curiosidade ficaria satisfeita; e, em contrapartida, jamais o Álvaro de Campos ou o Alberto Caeiro se revestiriam, a meus olhos, daquelas pungentes personalidades que lhes permitiu, e aos outros, o seu espírito sem realidade nenhuma. Porque esta é a verdade, meu Amigo: toda a sua tendência para a “despersonalização”, para a criação de poetas e escritores “heterónimos” e não pseudónimos, significa uma desesperada defesa contra o vácuo que V. sentia em si próprio e à sua volta. Quando V. criou o Álvaro de Campos, o Alberto Caeiro e o Ricardo Reis, quando fez deles um grupo de amigos seus, defendeu-se contra si próprio – e só não o tendo eu conhecido pessoalmente, não tendo, pois, assistido à irremediável ausência de qualquer deles, era possível cumprir-se em mim (ou noutros em idênticas circunstâncias, e para quem, também, a poesia não seja uma forma definitiva como um título consolidado) o que deve ter sido um dos mais melancólicos sonhos da sua vida.

V. não foi um mistificador, nem foi contraditório. Foi complexo, da pior das complexidades – a sensação do vácuo dentro e fora, V. não foi um poeta do Nada, mas, pelo contrário, poeta do excessivamente virtual, de toda a consciência trágica de probabilidade, que a crença no Destino não exclui.

Os seus heterónimos (e V. quando escreveu em seu próprio nome não foi menos heterónimo do que qualquer deles) não são as personagens independentes, protagonistas do “drama em gente”, do qual V. falou. Embora V. os visse, e os ouvisse e, por conta deles, se inspirasse, não representam um drama, nem vivem, em comum, o romance das “vidas que V. não queria ter”, segundo a expressão de Casais Monteiro – porque as biografias, que lhes deu, são ainda bem pouco para o que eles disseram... Poderei, com maior piedade do que lhe permitiu, a V., a sua lucidez devoradora, afirmar que essas vidas vieram depois, e amassadas com lágrimas que V. considerou imerecidas, que não quis gastar sobre a sua própria vida?

Quem lê as poesias assinadas com o seu nome, e as outras assinadas Álvaro de Campos, e depois as compara com as de Alberto Caeiro e Ricardo Reis, não sentirá como eu senti, que só a estes dois últimos pertencia a possibilidade poética de se erguerem, totalmente, acima do “Indefinido”? Esse Lucrécio e esse Horácio, com quem V. tentou raivosamente limitar-se; através dos quais tentou existir com o possível mínimo de ser; pela boca de Caeiro, afirmando o valor intacto do mundo exterior, embalsamado assim num devir inocente; pela boca de Reis, amando o quanto de gratuito a vida lhe podia conceder, uma vez que V. e a sua Lídia abstracta transformassem num só dia a vida inteira –

Inscientes (...) voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

- esse Lucrécio e esse Horácio, ambos tão incansáveis, tão resignado e indiferente o primeiro, e tão altivo o segundo, eram a sua revolta intelectual.


O Álvaro de Campos e o Pessoa que a V. ficou das sobras, esses eram da sua revolta sentimental. Eram quotidianos; eram o seu chegar à janela e ver a rua; eram a sua mágoa, quer de não estar em toda a parte, quer de estar em parte nenhuma, apesar do paliativo, que a V., quando em seu nome, lhe provinha de uma auto-submissão intelectual terrivelmente activa. Por isso o Álvaro de Campos escreveu a “Ode Marítima” e a “Tabacaria”; por isso o Fernando Pessoa escreveu os poemas da “Mensagem” e “O Menino da sua Mãe”. Ambos recordam a infância; e, para ambos, o passado é, como a infância, uma lembrança misteriosa que se não apaga. Lembrança de quê? Infância de quem? Muitas vezes perguntaram isso, mas a resposta era um silêncio e, mesmo (bem sabemos, não é?), um consultor dos astros, como verificação...


Não, meu Amigo! O D. Sebastião da “Mensagem” parece-se tão extraordinariamente com o Menino Jesus do “Guardador de Rebanhos” (“era o deus que faltava”...), que quase se suspeita da objectividade de “O Menino de sua Mãe”! É essa a fonte do espantoso vácuo que o cercava, meu Amigo: o vácuo da Terra, da qual o Sol se levanta, mas da qual não nasce!...

A noite, que V. poeticamente sentiu, como raríssimos poetas portugueses, com uma densidade e uma profundidade que a solidão lhe ensinou, foi o seu grande refúgio: nela a sua lucidez se alongava e expandia, é certo que dolorosamente, mas sem encontrar um objecto para o ataque, uma imagem a que antepor um cruel espelho.

Hoje, que a solidão e a lucidez perderam, para V., todo o sentido que tinham, reconheça comigo, que, se a elas ficou devendo uma inspiração sincera, lhes ficou devendo, também, o constante perigo de não conseguir se o grande Poeta que foi. A presença desse perigo é constante na sua obra; chega a tornar-se um dos temas fundamentais: e momentos houve, nos quais V. se comprazia em mergulhar nessa

... espécie de loucura
que é pouco chamar talento,

como se ela fosse, por si própria, uma virtualidade de expressão poética. Todavia, assemelhava-se a uma virtualidade poética: era um saber o som das asas cortando o ar... Assas tão grandes!... Tão consoladoras essas grandes asas!... E, depois, dizer o quê?... Se o dizer fosse o que fosse equivalia a restringir, a criar pequenos e pretensos mitos, em substituição dos outros maiores, tal como as palavras tinham sido criadas para esconjurar esses outros...


Não creio, portanto, que a morte o tenha prejudicado, meu Amigo: V. não diria mais do que disse; V. tinha dito sempre a mesma coisa – maravilhosamente, de quantas maneiras possíveis.

Veja, no entanto, as “Malhas que o Império tece”! Porque V., à parte o seu caso único na história das literaturas, para ser algo do Super-Camões que anunciara, não precisava de ter publicado uma espécie de Lusíadas, e de deixar as Líricas dispersas por revistas, ou amontoadas num baú, entregues às mãos do acaso e da amizade...


As suas obras estão sendo publicadas. O grande público decorará o seu nome; muitas pessoas o lerão; algumas o hão-de entender e amar. Outras desconfiarão de V. Outras, ainda, lamentarão secretamente aquela complexidade, de que já falámos, e que não pode servir de garantia a profecias ou realidades, para uso do “gado vestido dos currais dos Deuses”. Será tido como mistificador. Será tido como contraditório. Mas V., meu Amigo, já o sabia... E aquele sorriso vago, que flutuar aquém dos seus retratos, para quem será, não é verdade?


Creia na imensa admiração e no imenso respeito do
Jorge de Sena
In Fernando Pessoa & Cª Heterónima

eugenio montale-1896-1981



ENCONTRO

Hesitámos por um momento
e pouco depois reconhecemos
que sofríamos da mesma doença.
Não existe definição
para esta maravilhosa tortura,
há quem lhe chame spleen
e quem fale em melancolia.
Mas se aceitamos o jogo
nas suas margens encontramos
um sinal inteligível
que pode dar sentido ao todo.


Eugenio Montale, "Poesia" (Diário Póstumo, 19696), tradução de José Manuel de Vasconcelos,
Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 2004

Teixeira de Pascoaes


Poeta quer dizer Possesso. Não devemos confundir os artistas do verso com os criadores de Poesia. Os primeiros interessam apenas à Literatura, ao passo que os segundos têm um interesse vital e universal, como uma flor ou uma estrela.





Teixeira de Pascoaes
(in Aforismos )

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Josefina Plá

Desconcerto

Ao descascar a palavra esperança encontrei polpa de maçã
e caroço de pedra.
Ao descascar a palavra amor achei pele de pêssego
e carne de cinza.
Ao descascar a palavra verdade, encheu as minhas mãos
e ao chegar à minha boca não existia


Josefina Plá (1903-Ilhas Canarias;199 9-Paraguay)
A poeta nasceu nas Canárias, mas foi para o Paraguay,onde viveria sempre, aos 18 anos.

Para saber mais:
Jsefina Plá, 33 poermas-traduzidos porAlfredo Fresia, para ed. Fluviais, Lisboa,2002

blaise cendrars,moravagine

moravagine

Ó jovem, considera a secura
dos trágicos que se perdem em facécias. Não esqueças
que não existe alguma vez progresso
quando o coração petrifica. É
preciso que toda a ciência se
ordene à semelhança dum fruto que
se dependure na ponta de uma árvore
de carne e que amadureça
ao sol da paixão,
histologia, fotografia, campainha
eléctrica, telescópios, pássaros,
amperes, ferro de passar,
etc. – Tudo isto é para deslumbrar a porra da hu-
manidade.


O teu rosto é tão diferente
tão comovente molhado de
lágrimas e pronto a rebentar
de riso.





blaise cendrars,moravagine
trad. e pref. ruy belo
livros cotovia
1992

Adriano Botelho de Vasconcelos

9.1 Um cabelo longo com o resto de túmulo aberto numa rua
principal da cidade. O Tiba abriria em cada uma das letras
dos poemas a sua aurora
com tintas há muito afinadas no número de portas
que não se abriram. O sol na taça partida pela lebre agora sobe
o umbral da janela onde a ninfa está perto do meu poema,
descalça e pronta para pedir uma lua
mais aberta que resgatasse o último namorado
que com a cintura tirou um quarto de hotel que sem lâmpadas caiu
do último andar da noite : os polícias vieram à paisana, pretendiam
escrever o melhor romance de um crime que não podiam
testemunhar. Uma noite por este postigo não faz o crime.
Chamem um carcereiro cubano distante da sua terra natal
para dizer se uma utopia tirada de um contentor
pode salvar um país quando Fidel
está acordado sobre o sono
que Lenine prefere passear com duas
algemas.

10. O soba fechou o estádio com todos os teus troféus
que foram recolhidos pelos mesmos três ourives
que os jogaram para dentro do WC onde puderam
desfazer os seus
brilhos. Faço contas do teu ódio através das antiguidades
dos teus terços. Todos os gafanhotos que desceram
com o céu preso em suas asas
conheceram a tua
lavra.

10.1 Fomos para o tapete onde por descuido deixei
uma guarda aberta, não me tinha protegido com cotovelos
e ombros e uma forte razão para não cair no primeiro
assalto. As estrelas que são arrancadas do chão são anéis
da dor mais fina. Tentaste desferir mais um golpe quando
duas mães corriam para o ringue para fazerem de mim o último
dos seus filhos. O árbitro ficou impávido, tinha medo de erguer
as regras e já contava a minha desistência
quando a primeira mãe me disse que corresse pela calçada
onde Deus andou descalço. O soba desceu do camarote forrado
com tapetes vermelhos, parou onde estava o sino, tocou-o
com importância e já diante de ti ordenou que levasses os murros
para lá do tapete manchado de sangue. O árbitro pediu licença
para arrancar uma folha do livro
que os advogados deixaram numa estante
próxima do apóstolo que inventou o cálice para as vitórias.
Parece até que os teus punhos tinham uma dívida antiga
que querias saldar através do meu desfalecimento,
podias sempre escolher uma carpideira sem salários. O público
escolheu: já podia olhar através da praça
onde os heróis são cuidados com palavras que precisam
de ser repetidas. Olhaste para o soba e ele não te pediu
que usasses os joelhos para que pudesses voltar a dirigir
uma guerra. Ficaste zangado porque não tinhas como arrancar
o tapete do último assalto e colocá-lo
no coração do País depois de todos só poderem
usar três palavras para todas as necessidades
do coração.

11. Preciso de uma outra idade vivida por uma ideia
que saiba que desta árvore guardarei com lentidão
o movimento da folha que cai para fazer surgir
uma outra força e estação. A verdade dói menos
do que a velhice, mas todo o relato vem de uma derrota
que nos fez acreditar forçosamente que Deus escolhe
com atenção o dia mais
frágil para nos convencer que a nossa folha
é o que em cada instante já não podemos pegar com fascínio
e afinidades que valorizam os detalhes e espessura
da Sua arte.

[…]

Adriano Botelho de Vasconcelos
in Olímias
pag 56, 57, 58, 59
edição UEA, Luanda 2005

Adriano Botelho de Vasconcelos nasceu em Malange aos 8 de Setembro de 1955

Obras publicadas: “ Voz da Terra” ( 1974), “ Vidas de só revoltar” ( 1975), Células de ilusão Armada” ( 1983) , Anamnese ( 1984), “ Emoções” ( 1988), “ Abismos de silêncio” ( 1992),
“ Tábua” Grande premio Sonangol de Literatura ex -aequo ( 2003), “ Boneca de Pano: Colectânea do conto infantil angolano ( 2005), Caçadores de sonhos: antologia do conto angolano” (2005), “ Todos os sonhos: antologia da poesia moderna angolana” ( 2005), “ Olímias (2005), editou os jornais “ Unidade e luta” (1974), Angolê- Artes e Letras” ( 1984), “Maioria Falante” ( RJ) e concebeu o Webdesign do site da UEA ( União dos Escritores Angolanos)

Adriano Botelho de Vasconcelos

6. Oh, Kimbela, a morte do teu marido
podes chorar todos os dias no cemitério apoiada nos serviços
das floristas! Não posso deixar de me inclinar perante
o teu vale de lamentações onde se afunda a tua última fantasia
e do baú cheio de pó tiras a foto mais antiga do liceu.
Olhas para trás das nossas vidas e tudo se pode medir
pelo número certo dos degraus das vossas auroras.
Tudo se encaixa, o Diabo não foi capaz de alterar a fartura
da oferta que o céu soltou para o teu regaço e até exiges
que toda a sanzala te ofereça um dia de romaria e de lágrimas…
mas a morte de tantos irmãos, Oh Kimbela!.
é a mais dura subtracção da minha vida porque é um veio
de sangue que se cortou e nos abre o fundo da existência
( há uma parte da pátria que se parte
dentro de mim e só posso ter em minhas mãos
os estilhaços mais inclementes)
para que nos encontremos com a nossa própria fraqueza
e a odiemos. E Deus- apesar de O termos como os únicos
ouvidos e olhos que descobrem os criminosos – não facilita
em dizer “ Venham por aqui” : assim poderíamos ter África
como se quer um tecto
sobre nossas
vidas.

Adriano Botelho de Vasconcelos
in Olímias
edição UEA, 2005

Gerardo Diego

BALOUÇO

A cavalo no gonzo do mundo
um sonhador brincava ao sim e ao não

As chuvas de cores
emigravam para o país dos amores

Bandos de fores
Flores de sim ........Flores de não

Facas no ar
Que lhe rasgam as carnes
Formam uma ponte

Sim............Não

Cavalga o sonhador
Pássaros arlequins
cantam o sim......cantam o não

Gerardo Diego

Augusto Abelaira- Bolor

Ignoro porquê (o Concerto para a mão esquerda?), interrompo o esforço de ir escurecendo ( em verdade azulando) este caderno. Quando recomeço, volvidos alguns minutos, ponho um sinal na página cento e quinze-lembrar-me-ei assim, ao chegar lá, da minha inquietação, a curiosidade há-de obrigar os meus dedos a voltarem aqui, os meus olhos poderão ler as seguintes palavras (então por completo esquecidas, agora ainda por escrever):

Pouco depois de nos levantarmos e enquanto me barbeava, a Maria dos Remédios disse, através da porta:
- Costumas pensar muitas vezes na Catarina?
Demorei a resposta. Porque diabo lhe teria passado hoje aquela ideia pela cabeça- hoje e não há seis anos? Logo pela manhã, em vez de uma dessas frases iguais a muitas outras ( de paredes sólidas e sem janelas), teria eu deixado escapar algumas palavras transparentes, reveladoras de que a Catarina estava, continua a estar, no mais íntimo dos fundos, no mais íntimo de mim?
Com a máquina de barbear em punho, com o meu rosto bem na minha frente, lancei-me à procura do momento preciso em que acordei, dos minutos simultaneamente longos e apressados que precedem a decisão final de sair da cama, a conversa sobre o Aníbal Soares, a obrigação inadiável de o ir ver ao hospital, o...
Para além da porta fechada, os passos da Maria dos Remédios afastavam-se- aparentemente desinteressara-se de ouvir a resposta, pelo menos desinteressara-se de uma resposta precipitada, preferia conceder-me alguns momentos de reflexão.
Não muitos; os passos regressavam:
Achava-la bonita?
Ao mesmo tempo fico espantado comigo próprio: vivo contigo; Maria dos Remédios, há tantos anos, e nunca suspeitei desse teu vício ( a aritmética dos sentimentos).
-Ela era muito bonita-digo. Acabada a barba, abrira a porta e, em vez do meu, tinha agora em frente o rosto da Maria dos Remédios. Acrescento, receoso de uma ruga que lhe descia da testa, um pouco acima do nariz: -Não posso dar outra resposta, percebes?
- Sim, poderias dizer: a Catarina era feia.
-Saberias que eu teria mentido.
-E também que tinhas adivinhado o meu desejo de ouvir- adoçou levemente a voz, imitando a voz que me faltara:Tu és mais bonita...
-Desejavas, de facto?
-Não.
Perguntaste«Costumas pensar muitas vezes na Catarina?» E também: «Achava-la muito bonita?» Vou responder-te agora de outra maneira: «Receia, sim, a concorrência das mulheres que não conheço- as que conhecerei daqui a quatro ou cinco meses. Daqui a quatro ou cinco meses terás envelhecido quatro ou cinco meses, essas mulheres não terão envelhecido um único segundo. Daqui a quatro ou cinco meses terão rigorosamente a idade que tiverem, a idade com que as conhecerei daqui a quatro ou cinco meses, eu que não as terei conhecido quatro ou cinco meses antes».

(Augusto Abelaira- Bolor)

Francisco Morales Santos

COISA CERTA


As orquídeas não tecem
nem penteiam;
o mais que fazem
é desfiar a neblina
para tomar do céu
o fulgor, sua cobertura,
mas a selva
se ocupa de que vivam
obsequiando-lhes leito nos tocos
e em não poucas
de suas melhores árvores.
Imitando-as, claro,
em outra selva mais densa, ao acaso,
insurge uma espécie bípede
que busca, por toda costa,
viver como a orquídea.

Francisco Morales Santos (Guatemala, 1940)

Tradução: Anibal Beça

Dino Buzzati- o tempo humano

Sobre o tempo humano, este excerto de "O Deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati, é fabuloso. Arrumando o computador, encontrei esta página, que tinha digitalizado. Partilho convosco.

«Estendido na cama estreita, fora do halo de luz do candeeiro a petróleo, enquanto fantasiava sobre a sua vida, Giovanni Drogo foi inesperadamente dominado pelo sono. E contudo, justamente naquela noite – oh, se tivesse sabido talvez não tivesse tido vontade de dormir -justamente naquela noite principiava para ele a irremediável fuga do tempo.
Até então avançara pela despreocupada idade da primeira juventude, uma estrada que em crianças nos parece infinita, em que os anos passam devagar e com passos suaves, de modo que ninguém se apercebe da sua passagem. Caminha-se tranquilamente, olhando em redor com curiosidade, não é preciso ter pressa, ninguém atrás nos urge e ninguém nos espera, e também os nossos companheiros avançam sem preocupações, detendo-se amiúde para brincar. Das casas, às portas, a gente crescida saúda-nos benevolente e faz-nos sinal indicando o horizonte com sorrisos cúmplices; o coração começa assim a bater de desejos heróicos e ternos, saboreia-se a expectativa das coisas maravilhosas que nos aguardam mais adiante; não, ainda não se vêem, mas é certo, é absolutamente certo que um dia lá chegaremos.
Falta muito ainda? Não, basta atravessar aquele rio lá ao fundo, ultrapassar aquelas colinas verdes. Ou será que já chegámos? Não serão estas árvores, estes prados, esta casa branca, aquilo que procurávamos? Por alguns instantes temos a impressão de que sim e gostariamos de ficar por ali. Depois ouvimos dizer que o melhor está mais adiante e fazemo-nos de novo à estrada estrada sem esforço.
E assim se prossegue caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o Sol brilha alto no céu e parece nunca ter vontade de chegar ao ocaso.
Mas a certa altura, quase instintivamente, voltamo-nos para trás e vemos que uma cancela se fechou nas nossas costas, obstruindo-nos a via do regresso. Então sentimos que algo mudou, o Sol já não parece imóvel, desloca-se rapidamente, ai de nós, nem temos tempo de o fixar pois já se precipita no confim do horizonte; apercebemo-nos de que as nuvens já não ficam estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem encavalitando-se umas nas outras, tal é a sua urgência; percebemos que o tempo passa e que também a estrada um dia deverá terminar.
A certa altura encerram atrás de nós um pesado cancelo, fecham-no com a velocidade de um raio não nos dando tempo para voltar para trás. Mas Giovanni Drogo naquele momento dormia, alheado, e sorria no sono como fazem as crianças.
Passarão dias antes que Drogo perceba o que aconteceu. Então, será como um despertar. Olhará em redor, incrédulo; depois sentirá um rumor de passos que se aproximam atrás de si, e verá os que despertaram primeiro que ele correndo ofegantes e ultrapassando-o para chegar cedo. Sentirá o pulsar do tempo a marcar avidamente o compasso da vida. Às janelas já não se assomarão figuras risonhas, apenas rostos frios e indiferentes. E se ele perguntar se ainda falta muito para chegar, também estes farão um gesto a indicar o horizonte, mas desprovido de bondade e alegria. Entretanto perderá de vista os companheiros, um porque ficou para trás, exausto, outro porque se adiantou, fugindo, e agora não é mais do que um ponto minúsculo no horizonte.
Para lá daquele rio – dirão as pessoas - mais dez quilómetros e já chegaste. Mas a verdade é que nunca mais – os dias tornam-se cada vez mais pequenos, os companheiros de viagem cada vez mais raros, e às janelas vêem-se apáticas figuras pálidas que abanam a cabeça.
Até que Drogo ficará completamente só e no horizonte surgirá a faixa de um mar desmedido e imóvel, cor de chumbo. Então já estará cansado, as casas que ladeiam o caminho terão quase todas as janelas fechadas, e as raras pessoas visíveis responder-lhe-ão com um gesto desconsolado: o bom estava lá atrás, muito atrás, e ele passou-lhe diante sem se aperceber. Oh, agora é demasiado tarde para retroceder, atrás dele não pára de crescer o fragor da multidão que o segue, impelida pela mesma ilusão, mas ainda invisível na branca estrada deserta.
Giovanni Drogo agora dorme no interior do terceiro reduto. Sonha e sorri. Pela derradeira vez chegam-lhe de noite as doces imagens de um mundo inteiramente feliz. Que desgraça se pudesse ver-se a si próprio como será um dia, lá onde a estrada termina, parado na margem do mar de chumbo sob um céu cinzento e monótono, e em redor nem uma casa, nem um homem, nem uma árvore, nem sequer um fio de erva, tudo assim desde tempos imemoriais.»

Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros, Cavalo de Ferro 2006

Afonso Romano de Sant'Anna

A Implosão da Mentira

Afonso Romano de Sant'Anna

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história afora
vão enganar a morte eternamente.

Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.


Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.

Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constróem um país de mentiras diariamente.

Vinicius de Morais

Pátria minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome,

Derek Walcott

MAPA DO NOVO MUNDO – ARQUPÉLAGOS – Derek Walcott


Ao cabo desta frase, choverá
À beira-chuva, uma vela.

A vela aos poucos perderá de vista as ilhas;
A fé nos portos de uma raça inteira
sumirá na neblina.

A guerra de dez anos terminou.
O cabelo de Helena: uma nuvem grisalha.
Tróia: um fosso branco de cinzas
junto ao mar onde garoa.

A garoa se reteza como as cordas de uma harpa.
Um homem de olhos nublados toma em mãos a chuva
e tange o primeiro verso da Odisséia.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Soledade Santos- TO BE ALONE

TO BE ALONE

«To be alone is one of life's greatest delights»
D. H. Lawrence

uma chávena de chá sobre a mesa
um gato de barro um castiçal
algumas flores conchas livros
um caderno dois novelos
de lã e uma revista de tricot –
espólio de uma tarde à chuva
nessas delícias da solidão
que D H Lawrence cantou


Soledade Santos

José Manuel Arango



Os que têm por ofício lavar as ruas
(madrugam, Deus ajuda-os)
encontram nas pedras, um dia após outro, rastos de sangue

E também os lavam: é o seu ofício
E depressa
não se dê o caso de os primeiros transeuntes os espezinharem

José Manuel Arango


(versão de L.P. -original reproduzido em La poesia del siglo XX em Colombia, edição de Ramón Cote Baraibar, Visor, Madrid, 2006, p. 276).
In http://arspoetica-lp.blogspot.com/2009/06/jose-manuel-arango.html

Al- Hallaj ( 857-922 )




Eu te desejo,
não pela alegria da recompensa,
como se espera dos eleitos;
desejo-te para meu castigo.
Já abandonei todos os dons que sonhei desejar,
menos o êxtase de estar contigo
na hora de meu suplício.


Al- Hallaj ( 857-922 )

Daniel Filipe

Andorinha secreta de um verão,
que só nós dois sabemos, te revelas.
De que longínqua e solitária estrela
vieste iluminar-me o coração?

De que planeta ainda inominado?
De que mistério astral, corpo solar,
patagónia celeste, ignoto mar,
provém o teu perfil sereno e amado?

(Daniel Filipe)


Para saber mais sobre este poeta: http://www.astormentas.com/biografia.aspx?t=autor&id=Daniel+Filipe

blaise cendrars,moravagine

moravagine

Ó jovem, considera a secura
dos trágicos que se perdem em facécias. Não esqueças
que não existe alguma vez progresso
quando o coração petrifica. É
preciso que toda a ciência se
ordene à semelhança dum fruto que
se dependure na ponta de uma árvore
de carne e que amadureça
ao sol da paixão,
histologia, fotografia, campainha
eléctrica, telescópios, pássaros,
amperes, ferro de passar,
etc. – Tudo isto é para deslumbrar a porra da hu-
manidade.


O teu rosto é tão diferente
tão comovente molhado de
lágrimas e pronto a rebentar
de riso.





blaise cendrars,moravagine
trad. e pref. ruy belo
livros cotovia
1992

cecília meireles

MULHER AO ESPELHO

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz,
já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal fez essa cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se é tudo tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

ANÍBAL BEÇA- o que é a poesia



Anibal Beça (N.13 Set 1946/F. 25 de Agosto de 2009)



1) O que é poesia para você?

A poesia se há uma função para ela, é a de ter o poder de transformar o irreal no real e o real no imaginário. Tem o poder de humanizar um mundo que está zangado consigo. Este mundo em que vivemos em meio a tanta barbárie.
Creio no poder da poesia, que me dá razões para ver adiante e identificar um clarão de luz. Eu sou um trabalhador de metáforas, não um trabalhador de símbolos.
Eu considero a poesia uma medicina espiritual. Posso criar com palavras o que não encontro na realidade. É uma tremenda ilusão, mas positiva: não tenho outra ferramenta com que encontrar um sentido para minha vida ou para a vida daqueles do meu chão (vide “Filhos da Várzea”). Tenho o poder de outorgar-lhes beleza por meio de palavras e plasmar um mundo belo expressando também sua situação. No feio também há beleza. Tudo é matéria para o poema.

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Ler muita poesia. No café, no almoço, no jantar. Ler sobre poesia. Imitar os mestres num primeiro momento. Depois saber cortar o umbigo. Poderia sugerir algumas leituras como pré-requisito: A poética de Aristóteles, Poesia de Massaud Moisés, As Vanguardas e seus manifestos de Gilberto Mendonça Teles, Poesia experiência de Mario Faustino, Poesia de T.S. Eliot, ABC da literatura e poesia Ezra Pound, Cartas a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke, “Itinerário de Pasárgada” de Manuel Bandeira, entre muitos outros.

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que destas escolhas?

Mario Quintana, Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. O primeiro, pela descoberta da poesia, pela criatividade e por saber manejar com o mínimo um vasto universo poético. O segundo, pela musicalidade, pelo ritmo do verso, aliados às imagens, às ideias e pensamentos de modo singular O terceiro, pelo lirismo do cotidiano, das coisas banais, tratados na simplicidade com maestria. E por último, não nessa condição, senão o primeiro dos primeiros, pela genialidade.

"O modernismo e três de seus poetas", "Razão do poema", "A volta do poema", "O fantasma romântico" ensaios críticos de José Guilherme Merquior; "Signo e Sibila" e os dois volumes de "Ensaios escolhidos" de Ivan Junqueira e "Poesia e desordem", "Romantismo", "João Cabral - a poesia de menos" e "Escritos sobre poesia e alguma ficção", de Antonio Carlos Secchin. Pelo rigor, pela atualidade, pela discussão de idéias centradas na modernidade sem perder o seu vínculo com a tradição.


ANIBAL BEÇA é o nome literário de ANIBAL AUGUSTO FERRO DE MADUREIRA BEÇA NETO, poeta, tradutor, compositor, teatrólogo e jornalista, nasceu em Manaus, na Amazônia brasileira, em 13 de setembro de 1946. Trabalhou como repórter, redator e editor, em todos os jornais de Manaus. Foi diretor de produção da TV Cultura do Amazonas, Conselheiro de Cultura, consultor da Secretaria de Cultura do Amazonas. Vice-presidente da UBE-AM União Brasileira de Escritores, presidente da ONG “Gens da Selva”, onde atualmente exerce o cargo de vice-presidente, bem como de presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Amazonas e presidente do Conselho Municipal de Cultura;.é membro da Academia Amazonense de Letras. Neste ano de 2009, completa 43 anos de atividade literária e 45 de atuação na música popular, tendo vencido inúmeros festivais de MPB por todo o Brasil. Em 1994 recebeu o Prêmio Nacional Nestlé, em sua sexta versão, com o livro "Suíte para os Habitantes da Noite", concorrendo com 7.038 livros de todo o Brasil.
Ao lado de seus afazeres literários e musicais, tem se destacado em prol da causa da integração cultural latino-americana, seja traduzindo escritores de países vizinhos, ou participando e organizando festivais e encontros de poesia. Representou o Brasil no IX Festival Internacional de Poesia de Medellín, no III Encontro Ulrika de escritores em Bogotá e no VI Encuentro Internacional de Escritores de Monterrey. Sua produção poética tem sido contemplada em importantes revistas: “Poesia Sempre” (Brasil), “Casa de las Américas” (Cuba), “Prometeo” (Colômbia), “Ulrika” (Colômbia), “Revista Armas & Letras” da Universidade de Nuevo León ( México), “Tinta Seca”( México), “Lectura” (Argentina), “Frogpond Haiku”( Estados Unidos), “Amazonian Literary Review” (Estados Unidos), “Mississippi review” (Estados Unidos).

LIVROS PUBLICADOS: Convite Frugal, Edições Governo do Amazonas (1966), Filhos da Várzea, Editora Madrugada (1984), Hora Nua, Editora Madrugada (1984), Noite Desmedida, Editora Madrugada (1987), Mínima Fratura, Editora Madrugada (1987), Quem foi ao vento, perdeu o assento, Edições Muraquitã (teatro, 1988), Marupiara – Antologia de novos poetas do Amazonas, Edições Governo do Amazonas (organizador, 1989), Suíte para os habitantes da noite, Paz e Terra (1995), Ter/na Colheita, Sette Letras (1999), Banda da Asa – poemas reunidos, Sette Letras, (1999), Ter/na Colheita, Editora Valer (2006, segunda edição), Noite Desmedida, Editora Valer (2006, segunda edição), e Folhas da Selva, Editora Valer (2006). Chá das quatro, Editora Valer (2006) Águas de Belém, Editora Muhraida(2006); Águas de Manaus, Editora Muhraida( 2006). PALAVRA PARELHA reunindo os livros Cinza dos Minutos, Chuva de Fogo, Lâmina aguda, Cantata de cabeceira e Palavra parelha, Edições Galo Branco, Rio, 2008.

CD – MÚSICA: ANIBAL BEÇA – O Poeta solta a voz (2001) e DUAS ÁGUAS – 2006
http://sambaquis.blogspot.com



Anibal Beça N.13 Set 1946/F. 25 de Agosto de 2009


Érico Nogueira



TRÊS POEMAS de ÉRICO NOGUEIRA



DILÚCULO

Um lume chega – ou vem do alto, ou vem de baixo,
a treva, devagar, expele um novo dia;
sorriem bocas, mas num outro pasto,
que neste não há boca que sorria.

A folha verde desprendeu-se do salgueiro,
vagou luzindo pelo vento largo:
secou a folha logo, por inteiro,
o lume naufragou, salgado como um barco.


GLOSA DE MOTE ALHEIO


Sem bússola, sem mapa ou astrolábio
com que se ache, amigo, a tua estrela,
apruma o pinho, põe no mastro a ave
que te pareça bem ali, de vela;
daquela funda treva não se sabe
como voltar, a altura não se anela:
te resta o mar pisado e repisado,
pescar, talvez, o que já foi pescado.

Essa mão ergue, amigo, num instante,
outra mão em seguida o arruína:
por isso não há rota, e o navegante
perde o que teve, ganha o que não tinha,
e sem saber se é quartzo, se diamante,
lapida o que lhe coube na partilha;
de um torso sem os membros quem cinzela
faz ave se calhar, destino, estela.


AS QUATRO ESTAÇÕES


1.
A noite, e tudo o que é escuro e cíclico
e liquefaz-se ao tempo do farol,
está predita em todos os testículos,
nas orquídeas que chegam com a estação,
embora não vejamos. Só o ouvido,
que pinça o inominado, pinça, então,
do rio a cuja beira estive, estou,
o ar da bolha, da que morre o grito.
Eu não ouvia bem naquele tempo
quando meu olho, então recém-aberto,
se iluminava, fixo no desenho
que as folhas têm olhadas mais de perto;
tanto pior, tanto mais fria a noite
de quem vai nu ao mar, vai nu ao monte.

2.
a João Ângelo

Durante o átimo em que se aniquilam
dos corpos toda sombra e traço dúbio,
quando o globo é mais túrgido e mais nítido,
tem mais saliva a língua, que mergulha,
é quando o espinho, antes imprevisto
em fruta incandescente assim, e úmida,
entala na garganta e não afunda
se não levar quem mergulhou consigo.
Eu cuidava que as águas eram rasas,
e que corais nem pérolas havia
senão os ossos que à maré mesquinha
apetecia abandonar na praia:
lambido o fogo, vi-me em água densa
abrindo a ostra ao fogo nada infensa.

3.
Amarelece o ar, a terra, a água;
o fogo amadurece e, doce, azula;
se incide sobre as pedras na penumbra,
ele descobre-lhes a face exata
e delas vai fazendo busto e estátua:
tendo subido aqui, a esta altura,
indiferente sob estio ou chuva,
vejo que pedras tenho só, talhadas,
mas pedras mesmo assim. Pergunto ao fogo
de que me vale a mim a galeria,
se em breve escorrerei ao negro poço
e passarei: “De nada valeria,
se a cerejeira não florisse agora
sob o vento que passa e a luz que doura.”

4.
E a nuvem torna, torna enfim o vidro
de que se enche aquele mar imóvel
onde o cardume acaba, e o rio que corre;
o louro seco, a taça já sem vinho
e a neve elementar no céu friíssimo
parecem proclamar que se dissolve
o quanto pelos lábios dança e escorre:
se o galho esplende, pesa sobre o abismo.
Neste penhasco, na aridez da pedra,
me apronto agora para ser levado,
para voltar enfim a ser areia,
e penso em tudo, e olho a todo lado;
não sei se é luz ou não o que há no gelo,
mas sei que é calmo, que não vou temê-lo.

+

Érico Nogueira nasceu em Bragança Paulista em 1979. Poeta e estudioso da Antigüidade greco-latina, ganhou o “Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura” de 2008 com O Livro de Scardanelli (É Realizações, 2008), de que selecionamos os poemas aqui publicados. Vive em São Paulo, onde trabalha como editor (Dicta & Contradicta) e professor de línguas e literaturas clássicas (Instituto Internacional de Ciências Sociais).


Haroldo Campos



Haroldo de Campos

GALAXIAS ( I )

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravilha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favilha de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala


* Trecho do poema Galáxias de Haroldo de Campos *

Haroldo Eurico Browne de Campos
seu primeiro livro é de 1949 poeta de vasta, profunda e sofisticada cultura, poliglota, aprendeu "os primeiros" idiomas no Colégio São Bento, como o latin, inglês, espanhol e francês., O Auto do Possesso quando, ao lado de Décio Pignatari, participava do Clube de Poesia. em 1952, Décio, Haroldo e seu irmão Augusto de Campos rompem com o Clube, por divergirem quanto ao conservadorismo predominante entre os poetas, conhecidos como Geração de 45". a crença em uma "crise no verso" o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa.fundam, então, o grupo Noigandres, passando a publicar poemas na revista de mesmo título. nos anos seguintes defendeu as teses que levariam os três a inaugurar em 1956 o movimento concretismo, ao qual manteve-se fiel até o ano de 1963, quando inaugura um trajeto particular, centrando suas atenções no projeto do livro-poema "Galáxias". doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob orientação de Antônio Cândido. considerado o "mais barroco" dos concretistas, em 1999, o Prêmio Jabuti de poesia foi conferido para seu livro "Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um" (1998). foi professor da PUC-SP, bem como na Universidade do Texas, em Austin. dirigiu até o final de sua vida a coleção Signos da Editora Perspectiva. "Transcriou" em português poemas de autores como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Mayakovski, além de textos bíblicos, como o Gênesis e o Eclesiastes. com mais de 30 livros publicados, como "A Máquina do Mundo Repensada", último livro publicado em vida, onde declara já em seu título o diálogo com A Divina Comédia (Dante), Os Lusíadas (Camões), produziu numerosos e fundamentais ensaios de teoria literária, entre eles A Arte no Horizonte do Provável (1969).


Aníbal Beça



ÁGUAS DE MANAUS

Sou apenas um homem na paisagem
na tarde de silêncio e de mormaço.
Só o vento me anima na passagem
deixando no meu rosto o seu compasso.


Sou apenas um poeta na viagem
olhando pelo olhar dos olhos baços
a distância que abriga vaga margem
das águas da saudade nos meus passos.


Bem me quis esta vila que me habita
e bem me dei de encanto nos seus becos.
Contudo, não cantei sua desdita.

Dessa Manaus distante, restam crespas
pegadas, chão de rugas: minha pista
banhada nos banzeiros do Rio Negro



Aníbal Beça -N.13 Set 1946/F. 25 de Agosto de 2009




Anibal Beça. Poeta, tradutor, compositor, músico, teatrólogo e jornalista, nasceu em Manaus, na Amazônia brasileira, em 1946. Publicou Convite Frugal (1966), Filhos da várzea (Manaus: Ed. Madrugada, 1984 — abrigando o livro Hora nua); Marupiara — antologia de novos poetas do Amazonas (organizador. Manaus: Ed. Governo do Estado do Amazonas, 1985); Quem foi ao vento, perdeu o assento (teatro. Manaus: Ed. SEMEC, 1986); Itinerário poético da noite desmedida à mínima fratura (Manaus: Ed. Madrugada, 1987); Banda da asa (poesia reunida. Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 1998 — contendo o livro inédito Ter/na colheita); Filhos da várzea (2ª edição. Manaus: Editora Valer, 2002); Folhas da selva (Manaus: Editora Valer, 2006); Noite desmedida e Ter/na colheita, 2ª edição (Manaus: Editora Valer 2006); Palavra Parelha (poesia brasileira, Manaus, Edições Galo Branco, 2008. Site oficial: http://www.portalamazonia.com/anibal
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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Hal Sirowitz- dois poemas


MIGALHAS

Não leves comida para o quarto,
disse a mãe. Vais ter mais bichos.
Eles dependem de pessoas como tu.
De outra forma, morreriam à fome.
Mas quem é que queres fazer feliz,
a tua mãe ou um monte de formigas?
O que é que elas fizeram por ti?
Nada. Elas não têm sentimentos.
Elas vão comer os teus doces. Mesmo assim
tráta-las melhor do que me tratas a mim.
Estás sempre a alimentá-las.
Mas nunca me ofereces nada a mim.

DECLARAÇÃO

Se o John F. Kennedy consegue levar a sua mãe
à inauguração, disse a mãe, & não se sente
envergonhado quando ela põe o braço à sua volta,
então porque é que tu não queres ser visto
comigo na rua? Ele é o Chefe Máximo
de todo o país, & tu nem sequer mandas
no teu quarto. Tenho de ser eu a limpá-lo por ti.
Nunca ouvi ninguém a chamar-lhe maricas
por andar com a mãe, & mesmo se
alguém chamasse, isso não o incomodava, porque
ele sabe que não é verdade. Nunca me mandaste
embora quando eu te estava a mudar as fraldas.
As mães são o grupo mais injustiçado do país.
Assim que os filhos se tornam suficientemente crescidos,
fingem que já não nos conhecem.

(poemas de Hal Sirowitz)
traduzidos por José Luís Peixoto

o poeta António Maria Lisboa

O Poeta precisamente só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo.

(António Maria Lisboa)

RUI PIRES CABRAL

Hoje, por exemplo, Oráculos de Cabeceira, de Rui Pires Cabral, onde logo na primeira página se lê assim:



“I felt that it was all unreal.”



Chega ao fim do dia

a hora mais lenta, quando o céu

é vago e as luzes se acendem

no prédio da frente.



Vemo-los por vezes

dentro das janelas, vultos

delicados como miniaturas

ou meros reflexos que passam

nos vidros.



Alguns prosseguem encargos

de sombra, outros detêm-se

a olhar a rua, no gesto

a expressão do seu puro

enigma.



E são como provas

de coisa nenhuma. Se acaso

nos fitam, parecem dizer:

a morte não será decerto

mais estranha que a vida.

Ovídio (romano.s.I d.C)



Se são muito fortes as cadeias que te seguram, dir-te-ei apenas que deves fazer grandes viagens e fugir para muito longe. Hás-de chorar; os teus lábios hão-de pronunciar o nome da bela que deixaste e, a meio caminho, os teus pés recusar-se - ão a caminhar. Mas quanto menos vontade tenhas de partir mais te deves esforçar por fazê-lo. Insiste e força os pés a caminhar contra vontade. E não peças que chova; não respeites o sábado, como acontece com os estrangeiros, nem Alia, famoso pelo desastre que teve. Não perguntes quantas milhas já fizeste, mas apenas quantas te faltam, nem inventes pretextos para ficares em terras próximas. Em vez de contares os dias ou de fazeres rodeios para descobrires o caminho de regresso a Roma, foge; até hoje, a única coisa que protegeu os Partos dos seus inimigos foi a fuga.


Ovídio,Arte de amar

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Herman de Coninck (poeta de expressão neerlandesa-1044-1997)




Chegou com a alegria desajeitada de uma camponesa
de quatro anos. Tem o olhar ríspido e coquette
da minha mãe de 75 anos aos quatro.
E quando essa mãe morreu, tentou
ser tão sensata que a sua cabeça
se inclinava enquanto dizia: «quando eu
morrer, hei-de chorar imenso, sabes.»

Não precisa de pai a não ser para as bonecas.
Como é que hei-de fazer, pergunto. «Sentares-te aqui
na cadeira, e leres o jornal,», disse ela. Brinca à vida,
uma horinha, e depois a outra coisa.
Ela ensina-me o que é a poesia: de um nevão
seguir apenas um floco. Com ela aquilo que quero
é sempre possível: que seja hoje.•



Herman de Coninck (poeta de expressão neerlandesa-1044-1997)


Os Hectares da Memória

Tradução colectiva revista, completada
e apresentada por Nuno Júdice

alberto pimenta- mas que memória




[MAS QUE MEMÓRIA]


mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

é preciso emparedar o demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.

acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.


ALBERTO PIMENTA


Imitação de Ovídio, & ect, Lisboa, 2006.

Nuno Dempster



Tenho de repensar a minha vida,
disse-me, e acrescentou:
ser-se feliz é não ter esperança.
Lembrei-lhe o sol e o mar
que hoje vejo sozinho aqui na praia
e respondi não há quem viva assim,
ainda que a esperança não exista.
Mas vi-a olhar o céu,
dizendo que sorte é termos a Lua
- rege-nos as marés e o corpo -,
e que amava o seu rosto claro,
um espelho de luz na noite
onde se olhava já sem sonhos.
Nem suspeitou ser isso a esperança,
a lua e os espelhos sem mais nada,
a música que ouvíramos
e o mar além, atrás das dunas.

Nuno Dempster, in Dispersão - Poesia Reunida
ed, Sempre-em-Pé, Águas Santas, 2008

João Melo



Amada amada
porque suplicaste
que eu lançasse o meu esperma
contra o negro capim?
Avisaste-me é certo
que apenas te poderias dar
quando a lua furtiva se ocultasse
atrás das montanhas
Mas por um instante
imaginei loucamente
que fosse um acesso de romantismo.

Amada amada
porque suplicaste
que eu lançasse o meu esperma
contra o negro capim?
Avisaste-me é certo
que apenas te poderias dar
quando a lua furtiva se ocultasse
atrás das montanhas
Mas por um instante
imaginei loucamente
que fosse um acesso de romantismo.

João Melo

Rabia’a Al-Dawwya - de tantos ardores




De tantos ardores e apegos imoderados
faço correr fontes dos meus olhos que choram
e nenhuma lágrima minha voltou a subir.
Minha união com ele não dura
e meu olho ferido não dorme.

Rabia’a Al-Dawwya

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Alexandre O'Neill- No Reino da Dinamarca



Ao lado do homem vou crescendo


Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente


Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida.

(Alexandre O'Neill- No Reino da Dinamarca)

Lília Silvestre Chaves - são duas luas



são duas luas sem violoncelo
sem o resplendor dos anjos
ou dos desesperados
apenas mais uma em noite de vidro
silente de músicos
duas luas místicas
- pálpebras sem mistério ou verdade

mas do sorvo dessas luas
nasceu o poema
sem documento ou fonte

apenas a luz sonâmbula da vida

Lilia Silvestre Chaves

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Rabi’a Al - Adawwya

Rabi’a
(perguntaram),
de onde vens?
Do outro mundo.
E aonde vais?
Ao outro mundo.
E que fazes neste mundo?
Entretenho-me.
De que modo te entreténs?
Como o pão deste mundo
e cumpro as ordens do outro.


Rabi’a Al - Adawwya

ÀLEX SUSANNA- nocturno

NOCTURNO

Na sombra qualquer passo significa.
Fecha-te e escuta:
verás surgir na obscuridade
as brasas da memória,
a gotejar de um deserto,
o cheiro húmido.
Fecha-te e escuta
e não esperes nada,
tudo te será dado:
na sombra os triunfos
contam-se por clarões,
e o clarão basta
no fundo do coração
para chegar a compreender.

ÀLEX SUSANNA


(de Palácio de Inverno, 1987, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - os olhos e a memória)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

o amor é um cão do inferno - Charles Bukowski


pelas avenidas
as pessoas sofrem;
elas sofrem a dormir, elas acordam
a sofrer;
até os edifícios sofrem,
as pontes
as flores sofrem
e não há salvação –
o sofrimento senta-se
o sofrimento paira
o sofrimento espera
o sofrimento é.

não perguntem por que há
bêbados
drogados
suicidas

a música é má
e o amor
e o argumento:

agora este lugar
enquanto escrevo isto

ou enquanto lês isto:
agora é o teu lugar.
versão de manuel a. domingos às 22:57
*
Um poema de amor

todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes maneiras de amar e
falar e exigir.

as suas orelhas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
-maridos.

a maioria
das mulheres é muito
quente e lembram-me torradas
com manteiga enquanto a manteiga
se derrete
no meio.

há um certo olhar no
olhar delas: elas já foram
possuídas elas já foram
enganadas. na realidade não sei o que
fazer por
elas.

sou
uma boa picha um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das diferentes
camas
fumar cigarros
olhar para os
tectos. não era possessivo nem
injusto. Somente
um estudante.

eu sei que todas têm
pezinhos e vão descalças pelo chão enquanto
lhes vejo os tímidos cus no
escuro. sei que gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muito
poucas.

algumas dão-me laranjas e vitaminas;
outras falam baixinho da
infância dos pais e das
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é sem qualquer
motivo; algumas amam
bem, outras nem por
isso; a melhor na cama nem sempre é
a melhor noutras
situações; cada uma tem o seu limite como eu
tenho os meus limites e todos
aprendemos isso
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
tapetes e
fotografias e
cortinados, é
parecido como uma igreja
só que às vezes ouvem-se
risos.

as orelhas os
braços os
cotovelos os olhos
que procuram, a ternura e
a espera eu fiquei
preso eu fiquei
preso.
versão de manuel a. domingos às 22:45
montanhas mongóis brilham na luz
montanhas mongóis brilham na luz,
ouço o pulsar do sol,
o tigre é o mesmo para todos nós
e alto oh
bem alto no ramo
o rouxinol
canta.
versão de manuel a. domingos às 10:24
*
não se aprende nada com os clássicos
não durmo
há 3 noites
e 3 dias
e os meus olhos estão mais
vermelhos do que brancos;
rio-me ao
espelho,
e estive a ouvir
o tic-tac
do relógio
e o gás
do meu aquecedor
tem um cheiro
quente
e pesado, junto
com o som
dos carros,
carros presos
como ornamentos
à minha cabeça, mas
eu li
os clássicos
e no meu sofá
está uma puta
encharcada em vinho
que ouviu pela
primeira vez
a 9ª de Beethoven,
e educadamente
adormeceu
aborrecida.

pensa, meu velho, disse-me ela,
com a tua inteligência
ainda és capaz de ser o primeiro homem
a acasalar
na lua.
versão de manuel a. domingos às 10:22


adeus

adeus Hemingway adeus Céline (morrestes no mesmo dia)
adeus Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeusTennessee
Williams adeus cães mortos nas auto-estradas adeus todo o
amor que nunca foi adeus Ezra é triste é sempre triste quando
alguém dá e depois alguém tira eu compreendo
eu compreendo e dou-te o meu carro e o meu isqueiro
e o meu cálice de prata e o telhado que afasta
a maior parte da chuva adeus Hemigway adeus Céline adeus
Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeus Camus adeus Gorky
adeus equilibrista que cais enquanto rostos sem expressão
olham para cima depois para baixo e depois afastam a cara
zanguem-se com o sol, disse Jeffers, adeus Jeffers, eu só posso pensar
que a morte de gente boa e de gente má é igualmente triste
adeus D.H. Lawrence adeus à raposa dos meus sonhos e
ao telefone
foi mais difícil do que esperava
adeus Two Ton Tony adeus Flying Circus
fizeram o suficiente adeus Tennessee minha bicha alcoólica
esta noite estou a beber uma garrafa a mais de vinho
à tua saúde.
versão de manuel a. domingos às 19:20

depois de ler a imortal literatura do mundo

as crianças nas escolas
fecham ferozmente
os seus pesados
livros

e correm
sempre contentes
para o
pátio

ou

ainda mais
alarmante –

para as
suas
horríveis
casas.

não há nada mais
deprimente
do que
a imortalidade.
versão de manuel a. domingos às 19:01

o início

quando as mulheres deixarem
de levar espelhos
para todos os lados
talvez nessa altura
elas possam falar comigo
sobre
libertação.
versão de manuel a. domingos às 18:54

jogo do empurra


na verdade uma das coisas mais
terríveis é
estar na cama
noite após noite
com uma mulher que já não
queres comer.

elas envelhecem, deixam de ser
bonitas – elas até começam
a ressonar, a perder
sentido de humor.

às vezes, na cama, viraste para um lado,
os teus pés tocam os dela –
meu Deus, que horror! –
e a noite lá fora
para lá das cortinas
selando-vos aos dois
no
túmulo.

e de manhã vão à
casa de banho, cruzam-se no corredor, falam,
dizem coisas sem importância; fritam-se ovos, arrancam
motores.

mas vendo bem as coisas
estão 2 estranhos
a enfardar torradas
a queimar a cabeça entorpecida e as tripas com
café.

é assim em 10 milhões de casas
por toda a América –
vidas fora de prazo impelidas umas contra
as outras
e sem hipótese de
fuga.

tu entras no carro
e conduzes até ao trabalho
e lá há mais estranhos, a maioria deles
esposas e maridos de
alguém, e para além do sufoco do trabalho, eles
engatam e riem e apalpam, às vezes tentam
uma queca rápida algures –
não pode ser em casa –
e depois
conduzem de regresso a casa
e esperam pelo Natal ou pelo Dia do Trabalhador ou
pelo Domingo ou
por algo.
versão de manuel a. domingos às 11:00
minha


Ela repousa como uma coisa
Eu consigo sentir o grande e vasto vazio
da sua cabeça.
Mas ela está viva. Ela geme e
coça o nariz e
puxa o cobertor.
Em breve irei beijá-la boa noite
e iremos dormir.
e lá longe fica a Escócia
e debaixo de terra as
toupeiras correm.
Ouço motores na noite
e pelo céu uma mão
branca acena:
boa noite, amor, boa noite.
versão de manuel a. domingos às 12:54
certas coisas


certas coisas que nós suportamos
não nos dizem respeito,
e nós lidamos com elas
devido ao tédio ou ao medo ou ao dinheiro
ou à pouca inteligência;
a nossa vontade e a nossa esperança
cada vez mais pequenas,
tão pequenas que nem as suportamos,
nós agarramo-nos ao Ideal
mas perdemos o Rumo:
muita parra e pouca uva,
e vemos nomes que antes significavam sabedoria,
como sinais em cidades fantasma,
onde só as campas são reais.
versão de manuel a. domingos às 12:53
caixote do lixo


um cheiro intenso a fraqueza e crueldade
que fazemos com tudo isto?
as entranhas no caixote…
junto às latas de cerveja
aninhadas como um gato;
a vida não consegue ser menos ridícula
que a chuva
e enquanto apanho o elevador
para o 3º
passo pelo sr. Silva
junto à entrada
pálido como um morto
mas a andar por aí
a comprar doces e porcarias
e a enviar cartões de Natal;
e ao abrir a porta do meu quarto
uma luz suja turva-me a vista
garrafas caem
e uma voz diz
por que razão são os teus poemas
tão pessoais?
versão de manuel a. domingos às 12:51
os tubarões


os tubarões batem à minha porta
e entram e pedem favores;
a maneira como eles se sentam nas cadeiras
olhando em redor,
e pedem seja o que for:
lume, ar, dinheiro,
tudo o que conseguem –
cerveja, cigarros, cinquenta cêntimos, um euro,
cinco, dez,
tudo isto como se a minha sobrevivência estivesse assegurada,
como se o meu tempo não valesse nada
e a presença deles sim.

bem, todos nós temos os nossos tubarões, tenho a certeza,
e só há uma maneira de nos livrarmos deles
antes que nos mordam e comam até à morte –
deixar de os alimentar; eles encontrarão
alguém; tu alimentaste-os
das últimas doze vezes –
agora é tempo de voltarem
ao mar.
versão de manuel a. domingos às 10:57
e a luas e as estrelas e o mundo:


longas caminhadas à
noite –
isso é que é bom
para a
alma:
espreitar pelas janelas
ver mulheres casadas
cansadas
a tentar enxotar
os seus loucos
e bêbados
maridos.
versão de manuel a. domingos às 10:57
gelo para as águias


Estou sempre a lembrar-me dos cavalos
sob o luar
Estou sempre a lembrar-me de dar aos cavalos
açúcar
pequenos cubos de açúcar
parecidos com gelo,
e eles tinham cabeças como
águias
cabeças lisas que podiam morder
mas não mordiam.

Os cavalos eram mais reais do que
o meu pai
mais reais do que Deus
e eles podiam ter pisado os meus
pés mas não fizeram
podiam ter feito toda a espécie de horrores
mas não fizeram.

Eu tinha quase 5
mas ainda não me esqueci:
ó meu deus eles eram grandes e bons
com aquelas húmidas línguas vermelhas
a saírem da alma.
versão de manuel a. domingos às 10:56

um poema é uma cidade

um poema é uma cidade cheia de ruas e pregões
cheia de santos, heróis, pedintes, loucos,
cheia de banalidade e bebida,
cheia de chuva e trovões e períodos de
seca, um poema é uma cidade em guerra,
um poema é uma cidade a perguntar ao tempo porquê,
um poema é uma cidade a arder,
um poema é uma cidade cercada
com os barbeiros cheios de bêbados cínicos,
um poema é uma cidade onde Deus anda nu
pelas ruas como Lady Godiva,
onde cães ladram durante a noite, e afugentam
a bandeira; um poema é uma cidade de poetas,
muitos deles iguais uns aos outros
e invejosos e amargurados…
um poema é esta cidade agora,
a 50km de lugar nenhum,
às 9:09 da manhã,
o sabor a bebida e cigarros,
sem policia, sem amantes a passear pelas ruas,
este poema, esta cidade, a fechar as suas portas,
barricando-se, quase vazia,
de luto mas sem lágrimas, a envelhecer sem remédio,
as montanhas rochosas,
o oceano como uma magnólia a arder,
a lua sem qualquer grandeza,
a música de janelas partidas…

um poema é uma cidade, um poema é uma nação,
um poema é o mundo…

e agora entrego isto à lupa do editor
para a sua apreciação,
e a noite está noutro lugar
e mulheres deprimidas permanecem em fila,
cães seguem cães até ao estuário,
e sirenes anunciam navios
enquanto homens impacientam-se com coisas
que não conseguem fazer.
versão de manuel a. domingos às 10:53

como ser um grande escritor


tens que foder muitas mulheres
mulheres bonitas
e escrever alguns bons poemas de amor.

e não tens que te preocupar com a idade
e/ou novos talentos.

apenas bebe mais cerveja
mais e mais cerveja

e vai às corridas pelo menos uma vez
por semana

e vence
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer imbecil pode ser um bom perdedor.

e não te esqueças de Brahams
nem de Bach nem
da cerveja.

não faças exercício a mais.

dorme até ao meio-dia.

evita cartões de crédito
ou pagar seja o que for a
tempo e horas.

lembra-te que não há nenhum cu
no mundo que valha mais de $50
(em 1977).

e se tens a capacidade de amar
ama-te primeiro
mas nunca te esqueças da possibilidade de
derrota total
mesmo que a razão para a derrota
seja justa ou injusta –

sentir cedo o bafo da morte não é
assim tão mau.

afasta-te das igrejas e bares e museus,
e como a aranha sê
paciente –
o tempo é a nossa cruz,
mais o exílio
a derrota
a traição

tudo isso.

sê fiel à cerveja.

uma amante constante.

arranja uma grande máquina-de-escrever
e enquanto ouves os passos para cima e para baixo
lá fora

martela a coisa
martela com força

transforma-a num combate de pesos-pesados

transforma-a no touro na sua primeira investida

e lembra os velhos sacanas
que tão bem lutaram:
Hemingway, Céline, Dostoievsky, Hamsun.

se pensas que eles não enlouqueceram
em pequenos quartos
tal como tu agora

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então não estás preparado.

bebe mais cerveja.
há tempo.
e se não houver
está tudo bem
na mesma.
versão de manuel a. domingos às 12:58

raparigas serenas e meigas em vestidos de linho


tudo o que conheço são putas, ex-protitutas,
loucas. eu vejo outros com mulheres,
serenas e meigas – eu vejo-os nos supermercados,
a caminharem juntos pelas ruas,
nos apartamentos: pessoas em
paz, a viver juntos. eu sei que a paz
deles é limitada, mas há
paz, muitas horas e dias de paz.

todas aquelas que conheço são viciadas em comprimidos, alcoólicas,
putas, ex-prostitutas, loucas.

quando uma parte
há outra que chega
pior que a anterior.

eu vejo tantos homens com raparigas serenas e meigas
em vestidos de linho
raparigas com rostos que não são traiçoeiros ou
predatórios.

“nunca tragam uma puta”, digo aos meus
poucos amigos, “ainda me apaixono por ela”.

“tu não suportarias uma mulher meiga, Bukowski.”

eu preciso duma mulher meiga. preciso duma
mais do que preciso desta máquina-de-escrever, mais do que
o meu carro, mais do que
Mozart; eu preciso tanto duma mulher assim que
consigo senti-la no ar, consigo senti-la
na ponta dos dedos, consigo ver passeios construídos
de propósito para ela por eles caminhar,
consigo ver almofadas para a sua cabeça,
consigo sentir o meu sorriso enquanto a espero,
consigo vê-la a fazer festas a um gato,
consigo vê-la a dormir,
consigo ver os chinelos dela ali no chão.

eu sei que ela existe
mas onde está ela
enquanto as putas continuam a encontrar-me?
versão de manuel a. domingos às 12:17

uma das melhores


ela usava uma peruca prateada
a cara estava cheia de base e rouge
e tinha abusado no batôn
os lábios demasiado pintados
e o seu pescoço era enrugado
mas ainda tinha o cu de uma jovem rapariga
e as pernas eram boas.
tirei-lhe as cuecas azuis que usava
subi-lhe o vestido, e com a televisão ligada
tomei-a de pé
enquanto lutávamos pelo quarto
(estou a foder a morte, pensei, estou
a ressuscitar os mortos, maravilhoso
tão maravilhoso
como comer azeitonas às 3 da manhã
com a cidade a arder)
vim-me.

vocês os jovens podem ficar com as vossas virgens
dêem-me antes mulheres maduras e quentes de salto alto
com cus que se esqueceram de envelhecer.

é claro que depois tu vais embora
ou embebedas-te
o que é a mesma
coisa.

bebemos vinho durante horas e vimos televisão
e quando fomos para a cama
dormir para esquecer
ela deixou os dentes postos
toda a noite.
versão de manuel a. domingos às 12:15

o sítio nem era mau de todo

ela tinha umas boas ancas
e umas boas gargalhadas
ela ria-se de tudo
e as cortinas eram amarelas
e eu acabei
saí de cima
e antes dela ir à casa de banho
procurou debaixo da cama e atirou-me
um velho trapo.
estava duro
teso com o esperma
de outros homens.
limpei-me aos lençóis.

quando regressou
e se curvou
vi todo aquele traseiro
e pôs Mozart
a tocar.
versão de manuel a. domingos às 21:59

se ensinasse escrita criativa, perguntou-me, o que lhes diria?

diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cabeça da cama
de parede para parede
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs a tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentar ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazer exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender
que não há nada nem ninguém a saber tudo –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem
a dar uma aula de escrita criativa
e lerem isto
eu dou-vos um 20
pelo cu
acima.
versão de manuel a. domingos às 17:27

raparigas a chegar a casa

as raparigas chegam a casa nos seus carros
e eu sento-me à janela e
observo.

há uma rapariga num vestido vermelho
a conduzir um carro branco
há uma rapariga num vestido azul
a conduzir um carro azul
há uma rapariga num vestido rosa
a conduzir um carro vermelho.

quando a rapariga do vestido vermelho
sai do carro branco
vejo-lhe as pernas

quando a rapariga do vestido azul
sai do carro azul
vejo-lhe as pernas
quando a rapariga do vestido rosa
sai do carro vermelho
vejo-lhe as pernas

a rapariga do vestido vermelho
que saiu do carro branco
tinha as melhores pernas

a rapariga do vestido rosa
que saiu do carro vermelho
tinha pernas assim-assim

mas não me esqueço da rapariga do vestido azul
que saiu do carro azul

vi-lhe as cuecas

ninguém imagina o agradável que pode ser
a vida por aqui
às 5:35 da tarde.
versão de manuel a. domingos às 15:17

um poema cruel


eles continuam a escrever
a despejar poemas –
jovens rapazes e professores universitários
mulheres que bebem vinho toda a tarde
enquanto os maridos trabalham,
eles continuam a escrever
com os mesmos nomes nas mesmas revistas
cada ano a escreverem pior,
publicam colectâneas de poesia
e despejam mais poemas
parece um concurso
é um concurso
mas o prémio é invisível.

eles não escrevem nem contos nem ensaios
nem romances
apenas
despejam poemas
todos parecidos com os dos outros
e cada vez menos originais,
e alguns dos rapazes cansam-se e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho toda a tarde
nunca, mas mesmo nunca, desistem
e chegam outros rapazes com novas revistas
e há troca de cartas entre poetas e poetisas
alguns chegam a foder
e tudo é exagerado e aborrecido.

quando os poemas saem
eles reescrevem-nos
e enviam-nos para a próxima revista na lista,
e fazem leituras
todas as que conseguem fazer
a maior parte de borla
na esperança que alguém repare neles
que alguém os aplauda
lhes reconheça o talento
os felicite
eles estão convencidos da sua genialidade
há muito poucas dúvidas,
e muitos vivem no Grande Porto ou Grande Lisboa,
e as suas caras são como os poemas que escrevem:
semelhantes,
e conhecem-se uns aos outros e
reúnem e odeiam e admiram e escolhem e expulsam
e continuam a despejar mais poemas
mais e mais poemas
mais e mais poemas
o concurso dos pasmados:
tap tap tap, tap tap, tap tap tap, tap tap…
versão de manuel a. domingos às 12:36

eu

as mulheres não sabem amar,
disse-me ela.
tu sabes amar
mas as mulheres só querem
aproveitar-se.
eu sei isso porque sou uma
mulher.

hahaha, ri-me.

não te preocupes por teres acabado
com a Susan
porque ela só vai aproveitar-se de
outro.

falámos mais um pouco
depois eu disse adeus
desliguei
fui até à cagadeira e
dei uma boa cagadela
enquanto pensava, bem,
ainda estou vivo
e tenho a capacidade de deitar fora
o lixo do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
tenho a capacidade de lidar com
traição
solidão
cutículas
gonorreia
e com os relatórios financeiros das
páginas de economia.

depois
levantei-me
limpei-me
despejei o autoclismo
e pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.

puxei as calças para cima e fui
para a sala.
versão de manuel a. domingos às 11:33

os justos já herdaram

se sofro nas mãos
desta máquina de escrever
imaginem como iria sentir-me
entre os apanhadores
de alface em Salinas?

penso nos homens
que conheci em
fábricas
sem possibilidade
de fuga –
a sufocar enquanto vivem
a sufocar enquanto riem
com Bob Hope e Lucille
Ball enquanto
2 ou 3 crianças atiram
bolas de ténis contra
as paredes.

alguns suicídios ficam por
registar.
versão de manuel a. domingos às 11:22

e saberemos o que são as ilhas e o mar

eu sei que em breve
numa noite
em algum quarto
os meus dedos
tocarão
num suave
lindo
cabelo

músicas que nenhuma rádio
alguma vez passou

todas elas tristeza, arrastadas
pela corrente.
versão de manuel a. domingos às 11:18

cão

um cão
a andar sozinho pelo passeio num quente
verão
parece ter o poder
de dez mil deuses.

porquê?
versão de manuel a. domingos às 22:41

tu

tu és um animal, disse ela
com essa barriga grande e branca
e esses pés peludos.
nunca cortas as unhas
e tens mãos gordas
patas como um gato
com esse nariz brilhante e vermelho
e os maiores tomates
que alguma vez vi.
disparas esperma como uma
baleia dispara água daquele
buraco nas costas.

animal animal animal,
ela beijava-me,
o que queres para o
pequeno-almoço?
versão de manuel a. domingos às 22:29

doce música

é melhor que o amor pois não há
feridas: pela manhã
ela liga o rádio, Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart. coze os
ovos e conta os segundos em voz alta: 56,
57, 58… descasca os ovos, e trá-los
à cama. depois do pequeno-almoço é
a mesma cadeira e ouvir músi-
ca clássica. ela vai no primeiro copo de
uísque e no terceiro cigarro. digo-lhe
tenho que ir às corridas. ela
está aqui há 2 noites e 2 dias. “quando
te poderei ver outra vez?” pergunto. ela
diz que depende de mim. eu
aceno com a cabeça e Mozart toca.
versão de manuel a. domingos às 22:08

alguns pensamentos pessoais

eles têm razão: talvez tenha sido demasiado fácil escrever sobre mim e cavalos e bebida, mas também não estou a tentar provar alguma coisa. ultimamente tem sido agradável fazer longos passeios embora o meu desejo por mulheres continue, penso que não tenho que estar sempre alerta para novas conquistas. andar sempre no mesmo não tem que ser aborrecido. deixa que as jovens fêmeas preocupem outros homens. muitas vezes sinto-me melhor sozinho. agora considero as pessoas mais agradáveis do que desagradáveis (estarei a fraquejar?) e embora ainda tenha noites e dias deprimentes a máquina de escrever nunca me falha. os leitores esperam que os seus poetas melhorem sempre mas com esta idade aguentar (a tenta em pé, haha) é um milagre. passeios longos, sim. e a capacidade de não me preocupar – às vezes – enquanto a nossa sociedade implode e luta não significa que sou uma vitima da arte. noites sozinho por trás das cortinas, sem ser rico ou pobre, pode ser satisfatório. chegará a loucura a horas? não sei e não procuro a resposta – só um pequeno lugar entre não saber, não querer saber e, finalmente, saber.
versão de manuel a. domingos às 17:58

esta máquina é uma fonte

o meu sistema é sempre o mesmo:
vai com calma
escreve um grande número de
poemas
com todo o teu
coração aberto e
não te preocupes com
os piores
de todos.

continua
continua sempre
quente
esquece a imortalidade
se é que algum vez
te lembras
dela.

o som desta máquina é
bom.

quanto mais papel
mais desejo.

continua
a martelar à vontade e espera pela
sorte.

que
pechincha.
versão de manuel a. domingos às 17:35
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Charles Bukowski



Breve Biografia
Charles Bukowski (1920-1994) nasceu na Alemanha em 1920. Aos três anos foi viver para os EUA, tendo residido 15 anos em Los Angeles. Estudou literatura e jornalismo. Começou a escrever muito cedo e publicou os seus primeiros contos em 1944. Apenas terá começado a escrever poesia quando já tinha 35 anos. Trabalhou em bares, nos correios, estações de serviço, levando uma vida boémia à base de álcool, mulheres, apostas em corridas de cavalos e lutas de boxe. Foi várias vezes hospitalizado, devido a problemas relacionados com o consumo excessivo de álcool. De personalidade inconformada e iconoclasta, Bukowski nunca se deixou associar a qualquer movimento literário. Completamente independente, foi construindo uma obra com cerca de 40 títulos publicados. O seu primeiro livro de poesia data de 1959. Na sua campa, deixou o aviso: «Don't Try!»

O ESTRANHO – Murilo Mendes

O ESTRANHO – Murilo Mendes
 
 
Quantas vezes noturno me apareço
Na própria reveladora luz do dia:
Palpo-me tremendo sem me incorporar,
Flutuo numa atmosfera rarefeita
Anterior à forma organizada.
Alheio ao zumbido da criação
Perco antes de tudo a lembrança do batismo,
Dos sinais plásticos que me foram transmitidos.
Passo épocas inteiras sem me recordar
Que o Cristo morreu e ressuscitou comigo,
Que ouvi a voz de Abraão nas nuvens
E que me transformei de amor.
 
Outras vezes
Adivinho uma figura cantante me embalando
Sob o pretexto de me reconduzir
Ao lar perdido, ao fogo da montanha,
Onde antigos vestígios se guardavam
De fala celeste no santuário.
Toda de branca vestida a morte vejo:
Moça de nobre arquitetura clássica,
Ao véu voam seus velozes véus.
Dançando a todos engana,
Mas de seu mesmo riso nasce o fim.
Até que um dia vou-me aproximando
Dos arredores familiares do universo
Em que situo as órbitas espantadas:
E a lua emergindo em seu crescente,
Minha própria identidade me confere.

Elizabeth Lorenzotti

Tudo existe porque tem um nome
 
O rosário de jade sobre a Teogonia
O livro de Leonardo
Meu caderno de sonhos
Cristais de gengibre
A caixinha de Alhambra
A pedra cor-de-rosa
O hexágono da China
Potinhos de pedra-sabão de Minas
A obra em negro
Os escritos de Blake:
Tudo existe porque tem um nome
 
Elizabeth Lorenzotti
 

Mapa-Murilo Mendes

Mapa
Murilo Mendes

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo
desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou
andando, aos solavancos.

Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso,
angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos,
de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em
arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo
personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos
levantado populações

Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na
minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e
movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas
as agonias, me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras
aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete
mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes
suicidas,
e os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta.
Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados
no meu quarto modesto da Praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

Federico García Lorca

SERENATA
(Homenaje a Lope de Vega)

Por las orillas del río
se está la noche mojando
y en los pechos de Lolita
se mueren de amor los ramos.

Se mueren de amor los ramos.

La noche canta desnuda
sobre los puentes de marzo.
Lolita lava su cuerpo
con agua salobre y nardos.

Se mueren de amor los ramos.

La noche de anís y plata
relumbra por los tejados.
Plata de arroyos y espejos.
Anís de tus muslos blancos.

Se mueren de amor los ramos.

De: Canciones (1921-1924)

POEMA PESSOAL-Murilo Mendes

POEMA PESSOAL – Murilo Mendes


Levanto-me da carruagem de paixões e plumas
Aparentemente guiada pelas irmãs Brontë.

Deu uma tristeza agora nos telhados.

As cigarras sublinham a tarde emparedada,
O trovão fechou o piano.
Surge antecipadamente o arco-íris,
Aliança temporária de Deus com o homem,
Sem a solidez da eucaristia:
Surge sobre encarcerados, órfãos, marginais,
Sobre os tristes e os sem-solução.

Dos quatro cantos de mim mesmo
Irrompe um Dedo terribilíssimo que me acusa
Porque sem os olhar deixo de lado
Os restos agonizantes do mundo.

Transformou-se agora o céu.
Céu patinado, que escureza.
Céu sempre futuro e amargo,
Como são fundamentais
Estes sofrimentos de segundo plano!

Mais o que mesmo lembrar?
Ah sim – esta arrastada caranguejola da vida.