quinta-feira, 15 de maio de 2014

Emily Dickinson





A água se ensina pela sede;
A terra, por oceanos navegados;
O êxtase, pela aflição;
A paz, pelos combates narrados;
O amor, pela cinza da memória
E, pela neve, os pássaros.


 

  Emily Dickinson,
 (poeta norte-americana,
 nasceu em 10/12/1830 e morreu em 15/5/1886)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Poemas de Carlos Marzal




A poesia tem aquela aura de escrita intensa que quando é doce é muito doce, quando é dramática é muito dramática, quando é selvagem é muito selvagem.



Esplanada



está a chuviscar um bocadinho
mas não tanto que se possa
chamar a isto mesmo chuva


e vamos ficando molhados lentamente
mas não tão molhados que valha
a pena falar disso


e um bocadinho apaixonados
mas não tanto que se possa
chamar a isto mesmo amor



Poema de Henrik Nordbrandt, traduzido por Vitor Lucas Santos

***

Le bout de la nuit



Depois de termos amado (a até às vezes a sério)
e de termos sido amados (inclusive de verdade)
Depois de termos escrito, mas sem nomear nunca
o que era necessário. Depois das cidades,
dos corpos dos objectos, depois de termos deixado
para trás o memorável com que coincidimos,
depois de defraudarmos, depois de nos defraudarmos,
depois de percorrermos a viela do tempo,
depois da impiedade, depois do fogo,
acabamos por chegar ao fim da noite.
E aí a chuva cai escura sobre o mundo,
e já não há ocasião para dizermos depois.


Poema de Carlos Marzal (traduzido por Joaquim Manuel Magalhães)

Carlos Marzal, Espanha (n. 1961), tradução de Nuno Dempster

A Luis Antonio de Villena




Umas centenas de livros, uma casa na praia,

móveis que o coração foi envelhecendo

e que tornaram o mundo hospitaleiro,

fetiches de alguma viagem, talismãs

que nada puderam contra o mundo,

um punhado de cartas de uns quantos amigos,

uma ou outra carta secreta, inconfessável,

papéis ordenados, papéis sem sentido

medicamentos, quadros, roupa usada

e roupa por usar, várias contas de banco,

uma viúva aturdida, um automóvel,

uma amante aturdida, um pente com cabelos,

uma caligrafia que perdeu a firmeza da sua mão,

um odor familiar a caminho do nada.

Este é o inventário dos bens de um morto,

e como todo o censo e todas as listas

supõe um exercício de modéstia.

As nossas coisas, que às vezes pareciam proteger-nos,

habitar-nos o mundo que habitávamos,

num relance se convertem

num prolixo catálogo de absurdos,

rotas apagadas de um mapa inexistente,

pássaros dissecados cujos olhos

não sabem recordar um céu que já ardeu.



Carlos Marzal, Espanha (n. 1961), tradução de Nuno Dempster.

René Char (1907-1988), França, tradução de Soledade Santos





J’habite une douleur





Não entregues o cuidado de governar o coração a essas ternuras semelhantes ao outono do qual imitam o ritmo plácido e a agonia afável. O olhar enruga-se precocemente. O sofrimento conhece poucas palavras. É melhor que te deites sem fardos: sonharás com o futuro e a cama ser-te-á leve. Sonharás que a tua casa não tem vidros. Estás impaciente para te unires ao vento, ao vento que numa noite percorre um ano. Outros cantarão a encarnação melodiosa, a carne que não personifica senão o feitiço da ampulheta. Tu condenarás a gratidão que se repete. Mais tarde, identificar-te-ão a um qualquer gigante desintegrado, senhor do impossível.

E no entanto.

O que fizeste apenas aumentou o peso da tua noite. Voltaste à pesca nas muralhas, à canícula sem verão. Estás furioso contra o teu amor no centro de uma conivência aflita. Idealizas a casa perfeita que nunca verás edificada. Para quando a safra do abismo? Mas tu vazaste os olhos do leão. Tu julgas ver a beleza passar por cima das lavandas negras...

O que é que te ergueu, ainda uma vez, um pouco mais alto, sem te convencer?

Não há morada pura.

René Char (1907-1988), França, tradução de Soledade Santos

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Expresso do Alfa ao Omega





Expresso do Alfa ao Omega




(A Amélia Pais)


Nada há sob o sol
que já não tenham dito os gregos.


A novidade é que o mundo
ficou rápido. Mercúrio
tem agora jatos nos pés.


O homem impacientou-se
de viver longos anos
e tem pressa de chegar a nada.



Walter Cabral de Moura, É Lenta a Palavra Tempo, Editora Babbeco, Olinda, 2012




terça-feira, 25 de setembro de 2012

Coração pequeno





Coração pequeno



"o projétil que disparei
durante a grande guerra
deu a volta ao globo
e acertou-me nas costas


no momento menos adequado
quando já estava certo
de ter esquecido tudo


as culpas dele
as minhas culpas


pois quis como os outros
apagar a memória
as caras de ódio


a história confortava-me
tinha combatido a opressão
e o Livro dizia
-É ele o Caim


tantos anos pacientemente
tantos anos inutilmente
Coração pequeno

lavei com a água da piedade
a fuligem, o sangue, as ofensas
para que a sublime beleza
o encanto da existência
e talvez mesmo o bem
me habitassem
pois como todos
tinha o desejado voltar
à baía da infância
ao país da inocência


o projétil que disparei
com uma arma de pequeno calibre
contrariando as leis da gravidade
deu a volta ao globo
e acertou-me nas costas
como a dizer
- nada será perdoado
a ninguém


eis-me pois sentado solitário
sobre um tronco de árvore cortada
muito exactamente no meio
de uma batalha esquecida


e teço aranha grisalha
considerações amargas



sobre a imensidão da memória
sobre a pequenez do coração"



Zbigniew Herbert
(Polónia 1924/ 1998)



in DiVersos,
Poesia e Tradução, 17
Edições Sempre-em-Pé




A PEDRA DA LUZ





A PEDRA DA LUZ – Adonis




Esculpo minha vida sobre a pedra da luz
vida calma como um grão de trigo
névoa cobre minhas letras
vejo sombra nas minhas palavras.


Por ser amor
permaneço, construo sobre a luz
e um bocado dos meus dias constrói comigo.



Adonis
Tradução de Michel Sleiman

Elogio da Distância






Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.


Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:


Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.


Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.


Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.


Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.



Paul Celan, in "Papoila e Memória"
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

MIHYAR É UM REI




MIHYAR É UM REI – Adonis






Mihyar é um rei
para ele o sonho é palácio e jardins de fogo
hoje uma voz morta
queixou-se dele às palavras.



Mihyar é um rei
vive no reino do vento
reina na terra dos segredos.




Adonis
Tradução -Michel Sleiman

ENCONTROS





ENCONTROS – Ribeiro Couto




Dói-me às vezes pensar que na multidão
Muitos daqueles passantes que ali vão
Arcados ao peso de uma dor secreta
Não sabem que é para eles é que sou poeta
Não sabem que sei, tudo lhes adivinho
E em seus ouvidos falo baixinho.



Este seria meu amigo, aquele meu irmão,
A qualquer deles apertando-lhe a mão,
A surpresa de bom companheiro eu lhes faria,
Sábio até no riso que distrai da melancolia.



Uns caminham devagar, outros a passo lento,
Cada qual escondendo o mesmo sentimento.
Nada os espera, nem eles mesmo esperam nada,
Nem mesa posta, nem janela iluminada
Ao fim da rua, ou de outra rua, longe ou perto,
Ruas e ruas, ruas e ruas, sempre o deserto.



Portadores da minha própria solidão,
Assim passam, assim me deixam, assim se vão.

Elytis





Abro a minha boca e o mar se regozija
E leva as minhas palavras a suas escuras grutas
E às suas focas pequenas as murmura
Nas noites em que choram os tormentos do homem.

Abro as minhas veias e enrubram-se os meus sonhos
Transformam-se em arcos para os bairros dos meninos
E em lençóis para as raparigas que velam
Para ouvir às ocultas os prodígios do amor.

Aturde-me a madressilva e desço ao meu jardim
E enterro os cadáveres dos meus mortos secretos
E às estrelas traídas que eram suas
Corto o cordão dourado pra caírem no abismo


O ferro enferruja e eu castigo o seu século
Eu que já experimentei a dor de mil pontas
Com violetas e narcisos a nova
Faca vou preparar que convém aos Heróis.


Desnudo o meu peito e os ventos se desatam
E vão varrer as ruínas e as almas destruídas
Das espessas nuvens limpam a terra
Pra que surjam à luz os prados encantados.


Elytis
tradução - Manuel Resende



domingo, 2 de setembro de 2012

Namorada






Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.

Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.

Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.

Tento ser verdadeira.

Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.

Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.

Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.

Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.


(versão L. Parrado- original reproduzido em Selected poems, Peguin, Londres, 2006, p. 11).

Último brinde






Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…

Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada veem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.


Anna Akhmatova

(escrito em 1934, no original - tradução de Rubens Figueiredo)

Dádiva




Um dia tão feliz.
A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de
madressilva.
Não havia coisa na terra que eu quisesse
possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena
invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Me endireitando, vi o mar azul e velas.


CZESLAW MILOSZ

quinta-feira, 31 de maio de 2012

SUICÍDIO





Havia em mim uma vintena de gerações,
Assim pelo menos,
E nessa manhã, vá-se lá saber porquê,
Uma janela deixada aberta talvez,
Alguém se atirou para o vazio.

Então subitamente todos eles
Se puseram a saltar
Uns atrás dos outros,
À bicha, como que fazendo a chamada
Sobre um trampolim,
Segundo o princípio da desintegração dos carneiros.

Em menos de uma hora e meia
Encontrei-me totalmente despido, sem nada,
E de vergonha atirei-me para o vazio também eu,
Devo ter morrido à altura do quarto andar,
Ao décimo, em todo o caso,
A coisa estava consumada.

Tudo isto,
É um mero passante,
Quem vo-lo conta,
Um de entre nós,
Melhor dizendo,
Que terá talvez caído menos mal.




marin sorescu
simetria
tradução colectiva revista, completada e apresentada por egito gonçalves;poetas em mateus;quetzal;1997
Encontrado no blogue http://canaldepoesia.blogspot.com

domingo, 14 de agosto de 2011

LÁGRIMAS DOS OLHOS, COMO CENTELHAS DE SÍLEX


Lágrimas dos olhos, como centelhas de sílex,
como uma palavra justa, arrancar para que serve?
Nada há de especial. A palavra é como fogo,
e o coração do homem não vive de soluços.
Não é absolutamente isso que me atormenta.
Mas levantarmo-nos de madrugada, à chegada do dia,
e dizer a quem vai à frente:
- Felicidade! –
Dar-lhes uma canção, com toda a alegria,
que proteja como uma autêntica armadura,
das palavras que soam vãs e falsas.
Queremos do homem não a centelha mas o fogo.

Margarita Aliger
Tradução de Manuel de Seabra.



Margarita Aliger nasceu em Odessa no ano de 1915. Foi operária, bibliotecária e jornalista. Já em meados da década de 1930, fez estudos de Literatura em Moscovo. Tornou-se conhecida durante a II Guerra Mundial, muito por culpa de um poema, Zoyá, sobre uma jovem estudante enforcada pelos nazis. Zoyá foi publicado em 1942. Margarita tinha-se estreado em 1938 com God rojdéniia. Faleceu no dia 1 de Agosto de 1992.
________________________

OS POEMAS QUE ESCREVAS



Os poemas que escrevas,
ainda que muitos, são
um só, inacabável,
interceptado um dia:

sufocante abertura
por onde irás descendo
a um poço, uma vertigem,
com uma única saída

que, enfim, vislumbrarás
quando já não tiveres olhos.
JOSÉ BENTO *


Sítios, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.
*além de poeta,exímio tradutor de poesia espanhola

PREVISÃO DO TEMPO


Por que insistem os jornais em nos fazer previsão de chuva?

Podem até ter razão, mas o que não informam é que
depois virá o sol. Depois sempre vem o sol,
mesmo para os que morrem. Ou não é isso
o que prometem todas as religiões e os novos dias?

Entretanto vai continuar a chover, melhor estar prevenido.

Walter Cabral de Moura

A MENINA DO BRINQUEDO QUEBRADO

A menina do brinquedo quebrado

Esse poema eu o senti há oito dias, quando fui na segunda-feira da semana passada tomar o café da manhã numa padaria no bairro de Petrópolis, em Natal. De repente me veio à mente a imagem de uma menina com um brinquedo quebrado nas mãos, e que a todos o mostrava, entre esperançosa e desconsolada, mas estranhamente orgulhosa de seu brinquedo quebrado. Era um sentimento tão nobre que pensei que não iria conseguir transcrevê-lo, e fiquei muito feli z ao vê-lo assim em versos tão simples.

Agora lembro de algo que me ocorreu uns dez dias antes, quando de plantão num hospital psiquiátrico público de Natal. Atendi a um casal, um mestre de obras e sua mullher, ambos na faixa dos vinte e poucos anos; o pedreiro estava tendo sucesso na profissão, era inclusive o responsável pelo pagamento dos demais funcionários. Como a empresa demorou a repassar-lhe o dinheiro, ele ficou sem dormir, e com idéias de que o estavam tentando prejudicar deliberadamente, irritadiço, ansioso. É que muita gente ia cobrar-lhe o dinheiro, e ele n]ao tinha como atender aps queixosos. Não sei como descrever o desespero daquela jovem mulher diante da poissibilidade de o marido estar enlouquecendo logo naquele momento em progredia na profissão... Temi pelo píor diante do quadro, isso era por volta da uma hora da tarde. Felizmente, após uma boa soneca provocada por sedativos potentes, o homem, lá pelas dezoito e trinta horas, estava bem disposto e equilibrado, próprio a enfrentar a vida, e pude atender ao pedido da mulher para liberá-lo de volta á sua cidade,. na periferia da Grande Natal.

Ah, como ninguém é obrigado a saber francês, traduzo os versos de Baudelaire no poema "Ao leitor", em epígrafe no meu: "Hipócrita leitor, meu igual (semelhante), meu irmão".

absaam



A MENINA DO BRINQUEDO QUEBRADO
"Hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère!"

Eu vi a menina
que ia e que vinha
e em suas mãos tinha
um brinquedo quebrado.

E a todos mostrava
o seu sonho desfeito
- Ainda terá jeito
o brinquedo quebrado?

Há quem passe apressado,
há quem dê atenção;
há quem pegue na mão
o brinquedo quebrado.

Um se irrita, outro ri,
um tenta consolar;
outro quer consertar
o brinquedo quebrado.

Um estica, outro puxa,
há quem dê um aperto...
Mas não tem mais conserto
o brinquedo quebrado...

* * *

Tu conheces aquela menina
que senta na calçada
triste e desconsolada,
seu corpinho abraçado
a um briquedo quebrado?

Pois ela é nossa mãe,
vida, amante e amada;
nossa irmã que por nada
perde a estranha esperança
de voltarmos a ser
novamente a criança
que ela pôde ver
- manhã ensolarada!

O brinquedo sou eu
e és tu - Somos nós!
Desgraçado o que é
de si próprio o algoz;
e que se aos demais
diz sempre estar melhor,
a si mesmo não nega
que se torna pior.

Ainda que cansada
persiste no caminho.
Acha em seu coração
- poço estranho! - um carinho.
E o brinquedo quebrado
por seus dedos tocado
soluça qual um pinho.

Só por ela lembrado,
só por ela guardado,.
só por ela escutado...
O brinquedo quebrado.

Porque assim é aquela menina...

- Tu a conheces, leitor!


Antônio Adriano de Medeiros
agos - 2011

Uma alegria dolorosa


De que nos serve, no sábado à noite, quando a solidão
dos abandonados vem ter connosco à mesa dos cafés,
termos sido aquele a quem se disseram palavras de amor,
terem-nos tocado e olhado, esperado por nós,
enquanto ao longe os automóveis passavam, as pessoas,
apressadas, continuavam a procurar, febris, a felicidade?
Rompem-se as cordas, soam nos rios tristes da memória
os sinos da miséria e da escuridão. E se chove,
a melancolia que nos oprime já não se dilui nessa água suave.
A rapariga que podíamos ter amado, a última,
contempla as folhas verdes das árvores, sorri,
e imagina, sentada ao nosso lado, uma alegria dolorosa,
sem pensar em nós, distraída da densidade baça do nosso olhar.
E à uma da manhã, quando o cansaço vem,
e no espelho da casa de banho de um bar o rosto
se nos revela atormentado, os poros gordurosos,
dirigimo-nos devagar para a saída, dizemos boa-noite,
e é só nossa é a morte secreta, esse abandono.



João Camilo

A Ambição Sublime
Fenda
2001